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7 de janeiro de 2011

Eu, modo de usar:


Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir. Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar. Acordo pela manhã com ótimo humor mas ... permita que eu escove os dentes primeiro. Toque muito em mim, principalmente nos cabelos e minta sobre minha nocauteante beleza. Tenho vida própria, me faça sentir saudades, conte algumas coisas que me façam rir, mas não conte piadas e nem seja preconceituoso, não perca tempo, cultivando este tipo de herança de seus pais. Viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim para reconhecer-me um porto, um albergue da juventude. Eu saio em conta, você não gastará muito comigo. Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa. Respeite meu choro, me deixe sózinha, só volte quando eu chamar e, não me obedeça sempre que eu também gosto de ser contrariada. ( Então fique comigo quando eu chorar, combinado?). Seja mais forte que eu e menos altruísta! Não se vista tão bem... gosto de camisa para fora da calça, gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço. Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto: boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado, você tem que se esfolar as vezes, mesmo na sua idade. Leia, escolha seus próprios livros, releia-os. Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos. Seja um pouco caseiro e um pouco da vida, não de boate que isto é coisa de gente triste. Não seja escravo da televisão, nem xiita contra. Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai. Escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes
Me enlouqueça uma vez por mês mas, me faça uma louca boa, uma louca que ache graça em tudo que rime com louca: loba, boba, rouca, boca ... Goste de música e de sexo. goste de um esporte não muito banal. Não invente de querer muitos filhos, me carregar pra a missa, apresentar sua familia... isso a gente vê depois ... se calhar ... Deixa eu dirigir o seu carro, que você adora. Quero ver você nervoso, inquieto, olhe para outras mulheres, tenha amigos e digam muitas bobagens juntos. Não me conte seus segredos ... me faça massagem nas costas. Não fume, beba, chore, eleja algumas contravenções.


Me rapte! Se nada disso funcionar ... experimente me amar!

( Martha Medeiros )

A palavra




"Não vale reclamar, nem tão pouco cobrar da vida acertos dos erros que você mesmo cometeu.
Esconder os fatos não faz com que você seja "menos culpado".
As consequências são lançadas de acordo com suas decisões, e elas não são poucas nem fáceis.
Dói saber que não o tem por perto? Pare de resmungar e sinta sua dor, afinal ela só cabe a você porque foi escolha sua senti-la. Os dois caminhos, baby, estavam jogados para você. E  que fizeste?
Sinta a dor que te cabe!
É meio cômico te escrever essas palavras, soam como arrogância da minha parte, mas tu precisa receber o choque que a vida te reservou. E quem poderia fazer isso se não eu mesma?
Não estou aqui dizendo o que é certo ou errado. É que vejo os acontecimentos por outros ângulos por isso me torno obscurantista.
E ser verdadeira com você é ser verdadeira comigo, esse é o primeiro passo pra te ajudar.
Deixem as lágrimas molharem teu rosto, elas lavam a alma e te deixam aliviado.
Sinta sua dor. Sinta sua dor. Sinta sua dor. Sinta sua dor...
E depois aprende com ela. Vivi com ela. Cresce com ela.
É uma conquista sua que ninguém toma, (mérito teu), lembra?"



5 de janeiro de 2011

No Coração do Brasil


Lá, onde a vida é mágica. E
Estocolmo pode ficar bem
ao lado da ilha do Bananal





Há uns três meses me convidaram para ir a Uberaba, conversar com os alunos de Comunicação. Na confusão de fechamento do jornal, no telefone não ouvi sequer o nome da cidade. Quis dizer não, mas porque a vida é mágica e eu tinha esquecido, sem saber por que disse sim. Não guardei o nome do rapaz que telefonava, e voltou a telefonar. Quem, de onde? Nélson Bertoni, de Uberaba, você vem? Sim, eu vou.
Semana passada, nesta Antena, falei em Markito. Que não conheci, nunca soube onde nasceu. Um dia depois da Antena, um dia antes de vir para Uberaba, recebi um bilhete. Patricia Zaidan me falava que conhecera Markito na adolescência, na cidade deles. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, porque a vida é mágica: a cidade chamava-se Uberaba. Tonto de saudade súbita, sem a menor lógica, ligo para Sandra Laporta, em Niterói. Ao som de Jim Morrison, um dia ela me levou para a Suécia. Sandra me lembra que, embora a gente esqueça, a vida é mágica.
Desço em Uberaba quase às oito horas da noite de sexta. No aeroporto, alguém acena de longe: Nélson. Entramos no carro e, como se fosse a coisa mais natural do mundo, ela coloca uma fita. De repente, lá estamos nós, perto do coração selvagem do Brasil, falando de Clarice Lispector ao som do Jim Morrison que canta The End.
Corta. Estou parado no corredor da universidade em greve quando se aproxima um rapaz, louro como um viking, com um exemplar de O Ovo Apunhalado. Seu nome, pergunto. Chister Nilsson, ele diz. Alemão? Como se fosse a coisa mais natural do mundo, ele responde: sou sueco. De repente, ali estou  ao lado de Chister, de volta a Estocolmo – aquela cidade onde comecei a aprender que a vida pode ser mágica -, lembrando das fogueiras do Midsummer, dos bosques de Kungshrambra. Longe como numa vida que não fosse mais a minha, dentro e vivo como nessa vida que é exatamente a minha, divido memórias até agora indivisíveis, no coração do Brasil. Com Chister, que aos nove anos veio da Suécia para o Rio Grande do Sul, justamente no ano em que saí: do Rio Grande do Sul para a Suécia.
Presto atenção nos olhos puxadinhos de Ivonete (que adora Lou Reed, Velvet Underground e Bukowski), pergunto se tem sangue índio. Sim: sua mãe, na Ilha do Bananal, onde nasceu. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, me convida para ir até lá, em julho, quando a ilha é mais bonita. De repente, aqui estou eu, sozinho num quarto de motel que é puro Sam Shepard, em plena estrada para Araxá, Sertãozinho e Xororó no rádio, misturando na insônia as aves em extinção da Ilha do Bananal, Goiás, Brasil, com as águas geladas do fiorde de Freskati, Estocolmo, Sverige. Não, nunca compreendi o que quer dizer “colonização cultural”. Sincretismo, repito morto de sono. Sim-cretismo: Xangô e Thor.
Na tarde de sábado, sem saber por que, no meio de uma praça, começo a falar compulsivamente sobre Alex Valauri. Abraço uma árvore (angico, diz Ivonete; castanheira, diz Nelson; jacarandá, penso eu), encosto a cabeça em seu tronco espesso e, pela terra onde se cruzam todas as raízes, envio meu pensamento mais forte e mais bonito para Alex. Na hora de voltar, tem um céu muito azul em Uberaba. Nelson fala em James Joyce. No avião, anoto assim:  Eu retribuo o sorriso. Eu correspondo ao abraço. Eu digo sim. Eu quero sim. Eu sinto sins. Só porque estou vivo. E tudo isso, que parece mágico, é a coisa mais natural do mundo.
Depois o sangue de Sampa. Na noite da véspera do eclipse em Áries – entre o susto da morte outra vez batendo à porta ao lado e ao espanto dos encontros com as pessoas do mundo (elas estão por aí: lindas) – volta a certeza lógica e inabalável de que, aqui ou lá, longe ou perto do coração do Brasil, a vida é mesmo mágica. Isso é simples. Feito uma velha canção dos Mutantes, eu me sinto enfeitiçado. Ô yeah, digo, yeah e axé.



(Caio Fernando Abreu)

A aids é a minha cara: Anos de Chumbo

No hospital, fiquei amarrado numa maca, nu, sem poder me mover. Dois dias num corredor, com frio, e ninguém me dava um cobertor. Acho que fiquei delirando, acordava e dormia, e só lembrava de filmes, principalmente Frances, com Jessica Lange. O que achei até meio chique. Dois dias depois acordei numa cama. Minha irmã, Cláudia, entrou no quarto, nos abraçamos e choramos. Fiquei dois meses no hospital. Comecei a tomar AZT.

Também me diverti muito. Fiz amizade com muitas enfermeiras – habituadas a lidar com as verdades da vida, são pessoas diretas e sinceras – com todo mundo. O cara que fazia a faxina era pai-de-santo, uma outra enfermeira fazia parte de um grupo que tinha contatos com uma civilização extraterrestre, uma médica era kardecista, uma psicóloga me disse que tinha feito uma masectomia e estava toda ligada em anjos. O médico que me tratava era meu leitor. Ele teve um cuidado especial comigo e fiquei confiando nele. Eu pensava: “Bom, se o Francisco gosta do que escrevo, não vai querer me matar”. Quando saí do hospital , tudo me parecia tão precioso.
Como não escondi, desde o primeiro momento, que estava com Aids, não tive vergonha. Quando a gente não esconde, não há rejeição. Posso contar nos dedos de uma mão as pessoas que pararam de ligar. Nenhum amigo íntimo desapareceu. E tem uns, como a escritora Lygia Fagundes Telles, que ligam toda semana. Talvez eu tenha sorte, meus amigos sejam muito bons. Ou talvez, no meio em que eu circulo, isso já virou meio arroz-de-festa, ninguém mais nota a questão da Aids.
Mas quando entro no avião as pessoas se cutucam, me viram na TV e dizem: “Esse aí é o Caio Fernando Abreu, o escritor que está com Aids”. Recentemente dei um grito no avião. Duas peruas se cutucavam e cochichavam. Fiquei impaciente e disse aos berros: “Sou eu mesmo, o que foi?” Elas ficaram envergonhadas. Na maioria das pessoas senti uma coisa solidária, às vezes um pouco tensa. Elas não sabem muito bem o que fazer comigo.
A Aids mudou a relação das pessoas com o sexo. Deu origem até a coisas não muito boas, como o sexo por telefone, sexo por computador. Nesse sentido, nos deixou muito mais solitários com a nossa libido. Tocar o outro é uma aventura. Há dez anos era uma coisa banal. Isso é manipulado pela sociedade, pela igreja. Eu tenho amigos e amigas que não treparam mais. A camisinha pode rasgar, tem orifícios minúsculos. Eles ficaram paranóicos. O mundo contemporâneo está conduzindo o ser humano a uma grande solidão.
Não fiquei santificado com a doença. De alguma forma, sempre busquei a religiosidadee acreditei que este plano é ilusão. Uma passagem para tentar melhorar nós mesmos. Minha parte são os livros, uma tentativa de ajudar as pessoas a se conhecerem. Sou muito ligado em candomblé, e isso está refletido no trabalho. Meu romance Onde Andará Dulce Veiga? tem a estrutura hierárquica de um jogo de búzios. Todos os orixás são invocados no livro. O primeiro é Exu, que estabelece a ligação entre o humano e o divino.
Em agosto do ano passado, fiquei hospitalizado. Saí em setembro, vim para Porto Alegre, juntei forças e fui, no mês seguinte, à Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha. E retornei definitivamente. É gostoso voltar a morar com os pais, voltar à própria cidade. Descobri que os lugares não existem. Passam a existir quando se olha para eles e se adjetiva o lugar. Meu corpo está aqui. Não tenho a menor necessidade de sair daqui.
Muitos amigos foram embora, outros moram no Rio e Sâo Paulo. Por aqui, vejo o Luciano Alabarse, diretor de teatro gaúcho, falo com a escritora Lya Luft. E tenho um bom amigo, que conheci há uns dois anos, que se chama Léo de Oxalá – é um pai-de-santo. Não vou me relacionar com pessoas que ficam dizendo coisas desagradáveis. Tem os que sumiram por causa da Aids. Compreendo. Eu mesmo, quando alguns amigos ficaram doentes, fugi. Era o medo do espelho, talvez.
Que bom que eu tenho um tempo determinado. Posso me concentrar nas coisas que quero fazer. Posso escrever. Agora publiquei Ovelhas Negras, restos que nunca joguei fora. É o que foi ficando na gaveta desde os 14 anos de idade. Uma tentativa de revisar a mim mesmo. Parece um pouco com um livro póstumo e é uma maneira de fazer isso antes de morrer, revisando eu mesmo minha obra. O livro é uma passagem por momentos meus e do país: a ditadura, o sonho hippie, o exílio, a Aids. Tinha medo de não conseguir terminar o livro. Mas ele está aí, juntei tudo, já que vou morrer.
No livro tem uma história que foi censurada pelo Jornal do Brasil na época da eleição do Collor. O jornal pediu para o Márcio Souza escrever sobre o Lula e eu faria o mesmo com o Collor. Escrevi a história de um menino que sonha com um garoto ruivo e manco. No dia seguinte, vai para as pedras do Arpoador, no Rio, e lá aparece o garoto. Ele pergunta ao menino Collor se quer ser o dono de um país inteiro. Ele diz sim. E o garoto acaba comendo ele – era o demônio. O conto se chama O Escolhido. O José Castello, que era o editor, disse que a cúpula do jornal optou por não publicar. Quando o Collor ganhou, liguei e disse: “Por causa de covardia como a de vocês é que o cara foi eleito”. Tive receio de publicá-lo no livro. Acho que o caso do irmão, Pedro Collor, foi coisa de magia negra.
Tem uma coisa da Aids que é preocupante. Um dia eu estava no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, uma mulher atravessou o saguão e disse: “Deixe-me abraçá-lo. Você foi escolhido”. Eu agradeci. Ora, escolhido! Eu desejo saúde. A Aids não é um castigo de Deus. Pode ser um castigo no sentido de que a natureza foi violada demais. Então o homem tem que ser punido. O planeta, Gaia, é um organismo vivo, como uma planta.
Não sei quanto tempo tenho pela frente. O Betinho está aí há sete ou oito anos. Fisicamente não tenho nada. A única coisa grave é o sarcoma de Kaposi, uma forma rara de câncer na pele. Essa mancha no nariz é uma das lesões que eu queimei. O problema é que eu tenho por todo o corpo, e pode dar por dentro do corpo. É uma das infecções oportunistas. No hospital Emílio Ribas, vi um rapaz com esse câncer na boca, do tamanho de uma bola de tênis. Tenho horror da deformação.
Aprendi comigo mesmo a sair do próprio bode. Acho que todas as pessoas deveriam pensar no lado da luz. Está com vontade de se matar? Tudo bem, toma um banho, vai ao cinema, compra umas flores. Ficar trancado no quarto não vai resolver os problemas. Ora, vai na locadora, pega um vídeo da Doris Day e pronto!
Depois que fiquei doente, minha auto-estima não diminuiu. A minha vaidade é que acabou. E a coisa é irônica comigo, a doença me atingiu no rosto. Meus valores passaram a ser outros. A viagem delirante do ego parou de existir. Não preciso provar mais nada. Agora quero ter saúde e continuar meu trabalho. Ultimamente eu respondo assim aos que se queixam pra mim: “Pensa no Zaire”. “

          Depoimento a Fátima Torri - Revista Marie Claire  - Set 1995

A Aids é a minha cara: Anos Rebeldes

 
Não acredito em homossexualidade ou heterossexualidade. Acho que o que chamamos de civilização, e todos os seus condicionamentos culturais e sociais, nos encaminharam para essa camisa-de-força que é a definição de um papel sexual. Durante muito tempo senti que minha sensibilidade era feminina, mas nunca senti vontade de vestir roupa de mulher. Sempre fui um bissexual atípico, tenho horror a bicha gritando em barzinho de gays. Meus amigos são mulheres ou heterossexuais. Entremeei as relações com homens e mulheres. Mas as histórias com homens foram muito complicadas.
Sou PhD em desilusão amorosa. O homossexual masculino é muito galinha, muito sedutor. Fui muito honesto nas relações, não sei jogar. Odeio quando o amor se transforma em violência, competição, morbidez. Eu sou muito jeca afetivamente. Nunca fui uma pessoa promíscua. Aos 46 anos, estou cansado. Quando os amigos falam do amor e das frustrações, eu me sinto tão distante...Acho que Deus, o grande amor, é a procura do conforto original, o útero materno, a tentativa de voltar para essa situação.
Tive várias namoradas, poderia ter dois filhos, que foram abortados de comum acordo. Tive três namoradas sérias. A Cacaia, Maria Clara Jorge, foi a mais séria, durou três anos e com ela eu teria um filho que, agora, deveria ter uns 25 anos. Foi uma época de muita cocaína, durante um carnaval no Rio. Ficamos trancados no apartamento, cheirando pó loucamente. Ela ficou grávida. Aí pensamos que a criança nasceria deformada, nasceria um monstro. Antes dela, tive uma namorada arquiteta, a Pifa, Helena – qual o sobrenome mesmo? – que virou adepta do guru Rajneesh. A Maria Luisa Bender foi outro grande amor, que conheci na Companhia das Letras.
Gostaria muito de ter tido filhos. Aí penso o que faria se os tivesse. Eu, doente, com Aids, e meus filhos lá com as mães – como ia ser isso na cabeça deles? Recentemente fui ao Rio e vi a Cacaia, com quem poderia ter tido um de meus filhos. Ela agora tem uma filhinha, Emília, com cinco anos. Ela me apresentou para a filha e disse: “Vem ver o amigo da mamãe que está com Aids”. É o mundo de hoje.
Desde a primeira vez que ouvi falar em Aids, quando vi na televisão o anúncio da morte do costureiro Markito, em 1983, percebi que tinha a ver comigo. Na época, a Aids dava exclusivamente em homossexuais e era conhecida como câncer gay. Era ainda uma novidade muito grande. No meu arquivo de memórias, as lembranças da Aids são muito boas. O cantor e compositor Cazuza, tão digno até morrer. O dramaturgo Vicente Pereira, que trabalhou até morrer. O ator Carlos Augusto Strazzer, que tomou Daime (chá alucinógeno tomado pelos adeptos da seita religiosa Saanto Daime) até morrer. Tantos outros que encararam com dignidade a doença.
Meu caso mais sério foi um rapaz de São Paulo. Como é uma pessoa conhecida, não posso dizer o nome dele. Era um bailarino, um ator fantástico. Morou na Suécia, nos Estados Unidos. Eram poucas as informações sobre o uso da camisinha. Ficamos juntos alguns anos. Logo depois de nossa história ele teve uma toxoplasmose. Morreu em 1989. E eu fiquei soropositivo, embora a doença tenha se desencadeado só no final de 1994. A partir da morte dele, não me descuidei mais.
Queria fazer o teste de HIV, mas morria de medo. Se fosse positivo, tinha medo de morrer logo – sou fácil de sugestionar: estes dias, só de ler nos jornais, estava com os sintomas do Ebola. Ao saber do resultado positivo, enlouqueci, queria me jogar pela janela. Meus amigos ficaram muito assustados e me levaram para o hospital Emílio Ribas, em São Paulo.
Com o resultado, fiquei com uma sensação de alívio. Nunca tive vergonha ou neguei. Esta doença é a minha cara. Tem tudo a ver, eu sempre fui tão contemporâneo, sempre estive à frente de tanta coisa. Não podia mesmo morrer de outro jeito. Cosmicamente está certo. Em nenhum momento fiquei me culpando ou perguntando a Deus “Por que comigo, ó Senhor? Que desgraça!”.
                                  Breve: A Aids é a minha cara: Anos de Chumbo 

Depoimento a Fátima Torri - Revista Marie Claire  - Set 1995

A Aids é a minha cara: Anos Dourado

“Sou o mais velho de cinco irmãos, três homens e duas mulheres. Somos de Santiago do Boqueirão. Meu pai é militar reformado e minha mãe, quando nasci, era professora primária. Depois, foi professora de história, e mais tarde, graduou em filosofia. Minha mãe é uma tirana, uma gauchona. Recentemente foi ao médico porque sentia tonturas. Voltou e disse: “imagina que o médico afirma que eu tive um derrame e deveria estar paralisada do lado esquerdo. Imagina se eu vou ficar paralisada”. Ela fez 70 anos. Controla absolutamente tudo, os sons, os espaços. Já meu pai é muito quieto, reformou-se com 40 e poucos anos e nunca mais trabalhou. Quando ela viaja e ficamos só nos dois, instala-se um completo silêncio. É maravilhoso.

Comecei a escrever aos seis anos. Antes eu já contava histórias. Minhas tias contam que, na horas de dormir, elas iam contar histórias e eu invertia o jogo. Eu é que contava. Aprendi a ler muito cedo, filho e neto de professora, e saí escrevendo. Com 13 ou 14 anos, escrevi um romance que se chamava A Maldição dos Sant-Marie, que incluí em Ovelhas Negras, essa espécie de livro póstumo que lancei.

Cresci muito rápido, com 12 anos tinha mais de 1,80 metro. Via com horror meu corpo crescendo. Eu não queria ser adulto, achava uma besteira, dava muito trabalho. Continuei crescendo e a voz era a de um menino de 12 anos. Eu falava e as pessoas riam. Era ridículo, feio. Quando fui trabalhar na Veja, em São Paulo, com quase 20 anos, minha voz ainda era assim. Procurei um foniatra e ele disse que as cordas vocais provavelmente tinham ficado viciadas e eu tinha de fazer um tratamento caríssimo.

Em 1964, vim para Porto Alegre fazer o curso colegial no Instituto Porto Alegre, em cima do morro de Petrópolis. Era um internato masculino. Eu sempre fui meio selvagem, solitário, não gostava de falar, não tinha uma identidade com os rapazes da minha idade. Eles gostavam de futebol, eu queria ficar lendo. Não conseguia me relacionar bem. Os quartos eram para dois alunos mas, como não me dava bem com quem morava comigo, tinha o privilégio de ter um só para mim.

Minha primeira experiência homossexual aconteceu quando estava no IPA. Está num conto meu, O Sargento Garcia. Só que nessa primeira vez não aconteceu nada, fiquei aterrorizado, me pareceu muito sórdido. Num domingo à noite, fui seguido por um homem. Ele conversou e marcou encontro para três dias depois, no centro da cidade. Eu não sabia bem do que se tratava. Fui – sempre vou – morria de curiosidade. Ele me levou a um lugar horrível, muito feio, com lençóis sujos e um rolo de papel higiênico na cabeceira. Me jogou em cima da cama, completamente sem romantismo. Me fez segurar o pau dele e eu saí correndo. Tinha 16 anos. Sempre ficou na minha cabeça o desejo de que a primeira vez fosse uma coisa romântica.

Já a primeira experiência sexual com uma mulher ocorreu alguns anos depois. Fui estuprado em São Paulo, aos 19 anos. Ainda era virgem. Ocorreu no período em que fui trabalhar na Veja, por uma colega casada, bonita e atormentada, que hoje mora na Itália. Ficamos muito amigos. Num domingo chuvoso, tocou a campainha, abri a porta e era a Márcia, toda molhada. Não me deixou dizer nada. Me jogou na cama e me estuprou. Foi ótimo. Uma coisa que não entendo em amigos homossexuais é que nunca tiveram experiência com mulher. Se não têm parâmetros, como é que podem escolher?

Por esse tempo, fugindo de problemas com o DOPS, fui morar com a escritora Hilda Hilst, em sua fazenda de Campinas. Eu fiquei de secretário, ela escrevia e eu datilografava. Líamos muito, estudávamos astrologia, quiromancia, essas coisas. Aí aconteceu a história da figueira. Tinha uma figueira enorme na fazenda. A Hilda dizia: “Cainho, essa figueira é mágica. Quando a gente tem um problema muito grave, fala com ela e ela resolve”. Meu maior problema era a voz de menino. Uma noite, abracei a figueira e pedi para a voz mudar. Voltei para o quarto, peguei um livro de Fernando Pessoa que estava lendo e no terceiro verso a voz ficou assim, grave. Pedi com tal concentração e fé que, acho, eu mesmo me curei. A partir da mudança da voz fiquei mais seguro. Aí me assumi como adulto. Essa história é verdadeiríssima. A Hilda Hilst é testemunha.

Escrever era o que eu sabia, podia e devia fazer. Até hoje sou um tigre com minha mãe, meus irmãos. Não admito que se metam na minha intimidade em relação à escrita. A porta de meu quarto fica fechada. Odeio quando estou ali na escrivaninha, escrevendo, com uma idéia pela metade e vem um sobrinho bonitinho gritar no meu ouvido. Fico uma fera, sou capaz de matar. Sempre trabalhei em jornal ou revista, mas quando via que começava a prejudicar meu ofício, largava e caía fora. Pegava o FGTS e ia escrever. É uma coisa de determinação mesmo. Em um país como o Brasil, em que nada estimula a isso.

Eu fui seguindo meu instinto, as coisas que tinha vontade de fazer. Só isso. Não vejo nada de excepcional. Lembro de uma noite na fronteira gaúcha, em Itaqui, onde moravam meus avós. Falei para meu avô: “Um dia, quando eu for grande, vou morar na Suécia”. Devia ter uns nove anos e meu avô, que se chamava Aparício Medeiros, um nome bem gauchesco, morreu de rir. E não é que eu fui mesmo morar na Suécia? Desde criança, eu tinha certas intuições. Pelo lugar que nasci, pela minha formação, eu deveria ser advogado ou professor, e teria uma vida banal, com filhos, com a minha bissexualidade sob controle. Isso me parecia muito falso e não era o que eu queria. Paguei um preço alto? Era o meu destino, o que me foi reservado para fazer. Eu precisava cumprir assim. A minha vida sempre me pareceu perfeitamente lógica. Acho que tudo aconteceu do jeito que tinha que acontecer. Está tudo certo. Eu não atraiçoei nenhum dos meus impulsos”.
                             
                                Breve: A  Aids é a minha cara: Anos Rebeldes
                                                
                                           A    Aids é a minha cara: Anos de Chumbo

                          Depoimento a Fátima Torri - Revista Marie Claire  - Set 1995

Dica do dia

  • Arca de Nóe - Filme
  • Nikita - Séries
  • The Big Bang Theory - Séries
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  • 50 / 50 - Filme
  • Amizade Colorida - Filme
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Os infinitos mais vistos

Isso é escrever

“Não sinto nada mais ou menos, ou eu gosto ou não gosto. Não sei sentir em doses homeopáticas. Preciso e gosto de intensidade, mesmo que ela seja ilusória e se não for assim, prefiro que não seja. Não me apetece viver histórias medíocres, paixões não correspondidas e pessoas água com açúcar. Não sei brincar e ser café com leite. Só quero na minha vida gente que transpire adrenalina de alguma forma, que tenha coragem suficiente pra me dizer o que sente antes, durante e depois ou que invente boas estórias caso não possa vivê-las. Porque eu acho sempre muitas coisas - porque tenho uma mente fértil e delirante - e porque posso achar errado - e ter que me desculpar - e detesto pedir desculpas embora o faça sem dificuldade se me provarem que eu estraguei tudo achando o que não devia. Quero grandes histórias e estórias; quero o amor e o ódio; quero o mais, o demais ou o nada. Não me importa o que é de verdade ou o que é mentira, mas tem que me convencer, extrair o máximo do meu prazer e me fazer crêr que é para sempre quando eu digo convicto que nada é para sempre." (Gabriel García Márquez)

Definição

"Me mande mentalmente coisas boas. Estou tendo uns dias difíceis, mas nada, nada de grave. Dias escuros sem sorrisos, sem risadas de verdade. Dias tristes, vontade de fazer nada, só dormir. Dormir porque o mundo dos sonhos é melhor, porque meus desejos valem de algo, dormir porque não há tormentos enquanto sonho, e eu posso tornar tudo realidade. Quando acordo, vejo que meus sonhos não passam disso, sonhos; e é assim que cada dia começa: desejando que não tivesse começado, desejando viver no mundo dos sonhos, ou transformar meu mundo real num lugar que eu possa viver, não sobreviver."
(CFA)

Pausado

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"Tô feliz, to despreocupado, com a vida eu to de bem"

Quem sigo

Um Pouco

"Mas como menina-teimosa que sou, ainda insisto em desentortar os caminhos. Em construir castelos sem pensar nos ventos. Em buscar verdades enquanto elas tentam fugir de mim. A manter meu buquê de sorrisos no rosto, sem perder a vontade de antes. Porque aprendi, que a vida, apesar de bruta, é meio mágica. Dá sempre pra tirar um coelho da cartola. E lá vou eu, nas minhas tentativas, às vezes meio cegas, às vezes meio burras, tentar acertar os passos. Sem me preocupar se a próxima etapa será o tombo ou o voo. Eu sei que vou. Insisto na caminhada. O que não dá é pra ficar parado. Se amanhã o que eu sonhei não for bem aquilo, eu tiro um arco-íris da cartola. E refaço. Colo. Pinto e bordo. Porque a força de dentro é maior. Maior que todo mal que existe no mundo. Maior que todos os ventos contrários. É maior porque é do bem. E nisso, sim, acredito até o fim.” (Caio Fernando Abreu)