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5 de janeiro de 2011

No Coração do Brasil


Lá, onde a vida é mágica. E
Estocolmo pode ficar bem
ao lado da ilha do Bananal





Há uns três meses me convidaram para ir a Uberaba, conversar com os alunos de Comunicação. Na confusão de fechamento do jornal, no telefone não ouvi sequer o nome da cidade. Quis dizer não, mas porque a vida é mágica e eu tinha esquecido, sem saber por que disse sim. Não guardei o nome do rapaz que telefonava, e voltou a telefonar. Quem, de onde? Nélson Bertoni, de Uberaba, você vem? Sim, eu vou.
Semana passada, nesta Antena, falei em Markito. Que não conheci, nunca soube onde nasceu. Um dia depois da Antena, um dia antes de vir para Uberaba, recebi um bilhete. Patricia Zaidan me falava que conhecera Markito na adolescência, na cidade deles. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, porque a vida é mágica: a cidade chamava-se Uberaba. Tonto de saudade súbita, sem a menor lógica, ligo para Sandra Laporta, em Niterói. Ao som de Jim Morrison, um dia ela me levou para a Suécia. Sandra me lembra que, embora a gente esqueça, a vida é mágica.
Desço em Uberaba quase às oito horas da noite de sexta. No aeroporto, alguém acena de longe: Nélson. Entramos no carro e, como se fosse a coisa mais natural do mundo, ela coloca uma fita. De repente, lá estamos nós, perto do coração selvagem do Brasil, falando de Clarice Lispector ao som do Jim Morrison que canta The End.
Corta. Estou parado no corredor da universidade em greve quando se aproxima um rapaz, louro como um viking, com um exemplar de O Ovo Apunhalado. Seu nome, pergunto. Chister Nilsson, ele diz. Alemão? Como se fosse a coisa mais natural do mundo, ele responde: sou sueco. De repente, ali estou  ao lado de Chister, de volta a Estocolmo – aquela cidade onde comecei a aprender que a vida pode ser mágica -, lembrando das fogueiras do Midsummer, dos bosques de Kungshrambra. Longe como numa vida que não fosse mais a minha, dentro e vivo como nessa vida que é exatamente a minha, divido memórias até agora indivisíveis, no coração do Brasil. Com Chister, que aos nove anos veio da Suécia para o Rio Grande do Sul, justamente no ano em que saí: do Rio Grande do Sul para a Suécia.
Presto atenção nos olhos puxadinhos de Ivonete (que adora Lou Reed, Velvet Underground e Bukowski), pergunto se tem sangue índio. Sim: sua mãe, na Ilha do Bananal, onde nasceu. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, me convida para ir até lá, em julho, quando a ilha é mais bonita. De repente, aqui estou eu, sozinho num quarto de motel que é puro Sam Shepard, em plena estrada para Araxá, Sertãozinho e Xororó no rádio, misturando na insônia as aves em extinção da Ilha do Bananal, Goiás, Brasil, com as águas geladas do fiorde de Freskati, Estocolmo, Sverige. Não, nunca compreendi o que quer dizer “colonização cultural”. Sincretismo, repito morto de sono. Sim-cretismo: Xangô e Thor.
Na tarde de sábado, sem saber por que, no meio de uma praça, começo a falar compulsivamente sobre Alex Valauri. Abraço uma árvore (angico, diz Ivonete; castanheira, diz Nelson; jacarandá, penso eu), encosto a cabeça em seu tronco espesso e, pela terra onde se cruzam todas as raízes, envio meu pensamento mais forte e mais bonito para Alex. Na hora de voltar, tem um céu muito azul em Uberaba. Nelson fala em James Joyce. No avião, anoto assim:  Eu retribuo o sorriso. Eu correspondo ao abraço. Eu digo sim. Eu quero sim. Eu sinto sins. Só porque estou vivo. E tudo isso, que parece mágico, é a coisa mais natural do mundo.
Depois o sangue de Sampa. Na noite da véspera do eclipse em Áries – entre o susto da morte outra vez batendo à porta ao lado e ao espanto dos encontros com as pessoas do mundo (elas estão por aí: lindas) – volta a certeza lógica e inabalável de que, aqui ou lá, longe ou perto do coração do Brasil, a vida é mesmo mágica. Isso é simples. Feito uma velha canção dos Mutantes, eu me sinto enfeitiçado. Ô yeah, digo, yeah e axé.



(Caio Fernando Abreu)

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“Não sinto nada mais ou menos, ou eu gosto ou não gosto. Não sei sentir em doses homeopáticas. Preciso e gosto de intensidade, mesmo que ela seja ilusória e se não for assim, prefiro que não seja. Não me apetece viver histórias medíocres, paixões não correspondidas e pessoas água com açúcar. Não sei brincar e ser café com leite. Só quero na minha vida gente que transpire adrenalina de alguma forma, que tenha coragem suficiente pra me dizer o que sente antes, durante e depois ou que invente boas estórias caso não possa vivê-las. Porque eu acho sempre muitas coisas - porque tenho uma mente fértil e delirante - e porque posso achar errado - e ter que me desculpar - e detesto pedir desculpas embora o faça sem dificuldade se me provarem que eu estraguei tudo achando o que não devia. Quero grandes histórias e estórias; quero o amor e o ódio; quero o mais, o demais ou o nada. Não me importa o que é de verdade ou o que é mentira, mas tem que me convencer, extrair o máximo do meu prazer e me fazer crêr que é para sempre quando eu digo convicto que nada é para sempre." (Gabriel García Márquez)

Definição

"Me mande mentalmente coisas boas. Estou tendo uns dias difíceis, mas nada, nada de grave. Dias escuros sem sorrisos, sem risadas de verdade. Dias tristes, vontade de fazer nada, só dormir. Dormir porque o mundo dos sonhos é melhor, porque meus desejos valem de algo, dormir porque não há tormentos enquanto sonho, e eu posso tornar tudo realidade. Quando acordo, vejo que meus sonhos não passam disso, sonhos; e é assim que cada dia começa: desejando que não tivesse começado, desejando viver no mundo dos sonhos, ou transformar meu mundo real num lugar que eu possa viver, não sobreviver."
(CFA)

Pausado

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"Tô feliz, to despreocupado, com a vida eu to de bem"

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Um Pouco

"Mas como menina-teimosa que sou, ainda insisto em desentortar os caminhos. Em construir castelos sem pensar nos ventos. Em buscar verdades enquanto elas tentam fugir de mim. A manter meu buquê de sorrisos no rosto, sem perder a vontade de antes. Porque aprendi, que a vida, apesar de bruta, é meio mágica. Dá sempre pra tirar um coelho da cartola. E lá vou eu, nas minhas tentativas, às vezes meio cegas, às vezes meio burras, tentar acertar os passos. Sem me preocupar se a próxima etapa será o tombo ou o voo. Eu sei que vou. Insisto na caminhada. O que não dá é pra ficar parado. Se amanhã o que eu sonhei não for bem aquilo, eu tiro um arco-íris da cartola. E refaço. Colo. Pinto e bordo. Porque a força de dentro é maior. Maior que todo mal que existe no mundo. Maior que todos os ventos contrários. É maior porque é do bem. E nisso, sim, acredito até o fim.” (Caio Fernando Abreu)
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