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16 de novembro de 2010

O tassivelo





"Entra ano, sai ano, em alguns encontros de família maiores de repente todo mundo explode em risada, “putz, como é que você lembrou dessa, heim?”
São historias de quando era projetos de gente, e os meninos corriam na beira do telhado enquanto a gente no quarto fazia dormir o bebê e nem imaginava o perigo logo ali em cima. Ou quando eram adolescentes e a gente não adormecia direito enquanto não soubesse que todos estavam em casa. Ou de quando se casaram e pela primeira vez os vimos como realmente eram agora: adultos como nos casamos, tivemos filhos, batalhamos, ganhamos, perdemos.. que coisa.
No tempo em que ainda não era um agrônomo barbudo, mas um menino de bochechas rosadas e olhos de um prodigioso azul, um de meus filhos homens se fez e desfez, montou e remontou a palavra que significava um seu amado companheiro. Aquele, de quase-bebê, que levava por toda parte, o objeto estimado.
Não adiantaram pai e mãe – mesmo sabendo que era bobagem o que estava fazendo – pronunciarem a palavra “correta” diante deles várias vezes.
O correto dele era outro.
Tudo começou com o pedido:
- Mãe, onde tá o meu sivola?
Vários minutos pra descobrir o que era. Cebola? Cavalo? Ceroula nem existia naquela época. Finalmente ele mesmo encontrou, veio abraço ao seu tesouro:
- Ó, mãe, pra nanar.
- Ah, isso aí é travesseiro, filhinho, tra-ve-ssei-ro.
Nos olhos de azul-porcelana imperava uma obstinação tranqüila.
- Sivola.
Semana depois a coisa começou a se desenroscar:
- Mãe, me dá meu sivelo.
Estava melhor, mas ainda.. A gente sabia que era bobagem naquela hora de discutir ou ensinar. Palavras têm sua vida própria, se desenvolvem como plantas estranhas, principalmente em criança. Mesmo assim, alguém tentava:
- Filhinho, olha pra mamãe.
Dois holofotes azuis como só o menino de três anos. Aquela placidez.
_ Fala junto com a mamãe: Tra-ve-ssei-ro.
Ele pronunciou caprichando as silabas, na mesma entonação paciente da mãe.
- Si-vo-la.
- Será que esse menino está brincando comigo? Mas só com três anos?
Os lagos suíços refletiam a impotência materna, que nem mestrado de Linguística, nem manuais de português, nem o marido gramático, nem letras sobre psicologia infantil naquele momento diminuíam. Nada: aquilo ali, na cabeça da criança, é que era real.
Mais uns dias, e o objeto mágico tinha virado “ tassivola”.
Depois “tassivelo”. Tassivelo, tassivelo, e por fim a mãe escutou extasiada:
- TAVESSERO!
O menino era um gênio. O pai depressa escreveu um artigo na coluna de português que publicava diariamente, e a história – como tantas outras-, entrou para os anais da família.
O das histórias publicáveis, naturalmente."

Pensar é transgredir  - Capítulo 24, página 95, Lya Luft.

15 de novembro de 2010

Momento curiosidade - Como surgiu a cachaça

Que cachaça não é água, todo mundo já sabe e, quem não sabe, em algum momento da vida vai acabar descobrindo, seja pela ressaca, pela dor ou pelo amor. No entanto, você já parou para pensar de onde vem a branquinha?

A marchinha de carnaval acha que vem do Alambique, outros acham mesmo é que ela vem do bar pronta para afogar qualquer mágoa ou potencializar sentimentos de vitória. Sem questionar o mérito da bebida que mais tem a cara do Brasil.
Para entendermos o nascimento da mais ardente das águas, precisamos voltar aos primórdios da colonização, com o início da produção açucareira. Naquela época, os portugueses tinham não apenas dominio pelo processo de plantio e cuidado da cana, como também contavam com um clima favorável.
Os procedimentos de fabricação do açúcar eram feitos pelos escravos, que faziam a colheita da cana-de-açúcar, esmagavam os caules e cozinhavam os caldos – transformando-os em melados. Essa técnica fazia proporcionava a fabricação de um caldo mais grosso, a cagaça, e era dado aos animais junto com os restos da cana.

Você deve estar se perguntando, onde entra a cachaça que estamos acostumados a ver por ai e quem foi o verdadeiro responsável pela invensão dessa bebida? Pois fique sabendo, que o mentor da cachaça foi o tempo e as condições climáticas. Isso mesmo. O clima favorável e o passar dos dias faziam com que o líquido fermentasse, e se torna-se de alto teor alcóolico.

Estima-se que um dia um escravo experimentou o líquido e dai se deu a cachaça.
Outra teoria afirma que em um momento os escravos misturaram o melaço antigo com o novo ocasionaram uma reação química que fez com que o líquido evaporasse, formando assim gotas no teto do engenho. Enquanto os escravos ficavam nos engenhso as gotas caiam em seus corpos, fazendo arder as feridas causadas pelos ferimentos. Acredita-se que, desse fato, nasceu o termo aguardente. Da mesma forma que as gotas que caiam do teto se dirigiam até a boca dos escravos levaram o nome de pinga.

Não demorou para que a pinga, cachaça, aguardente, braquinha, superasse as barreiras dos engenhos de açúcar e se popularizasse no Brasil e do mundo – o resto é história de mesa de buteco.


Nota: O portal da curiosidade.

12 de novembro de 2010

_ “Sabe que o “real” e o “autêntico” são construções de linguagem.

“Queria tanto poder usar a palavra voragem. Poder não, não quero poder
nenhum, queria saber. Saber não, não quero saber nada, queria conseguir.
Conseguir também não - sem esforço, é como eu queria. Queria sentir, tão
dentro, tão fundo que quando ela, a palavra, viesse à tona, desviaria da razão
e evitaria o intelecto para corromper o ar com seu som perverso. A-racional,
abismal. Não me basta escrevê-la - que estou escrevendo agora e sou capaz
de encher pilhas de papel repetindo voragem voragem voragem voragem
voragem voragem voragem sete vezes ao infinito até perder o sentido e mais
nada significar [...] Eu quero sê-la, voragem”.

-

[...] é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e
pensando coisas,estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem
conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai
ser mais possível [...]

-

[...] sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você
ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você
não era apenas uma projeção daquilo que seu sentia, e se era assim, até quando
eu conseguiria ver em você todas as coisas que me fascinavam e que no fundo,
sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era
só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? [...]

-

Caio Fernando Abreu

6 de novembro de 2010

" Então ela chega e diz: Dá licença, rock and roll, que a tia vai cantar o amor "

"Os muitos darks que me perdoem, mas Maria Bethânia é fundamental. Sei, vocês vão dizer que ela é brega, careta, exagerada, melodramática. Pode ser. Mas essa coisa chamada vida onde estamos metidos até o pescoço, às vezes não é brega, careta, melodramática? A Vida é mais Nelson Rodrigues ou mais Clarice Lispector? Mais Augusto dos Anjos ou Emily Dickinson? Fassbinder ou Jacques Demy? Philip Glass ou Dead Kennedys? Mais Sex Pistols ou mais Cecília Meireles? Bukowski ou Bergman?

Tudo isso, sim, e muito mais. O engarrafamento às seis da tarde de uma sexta-feira de chuva, na marginal do Tietê, pode ser uma emoção-Titãs (tipo Bichos Escrotos). Transar com a garota prostituta da rua Augusta, de minissaia de couro e correntinha no tornozelo pode ser uma emoção-Dalton Trevisan. Dar um espirro bem na hora de dizer eu-te-amo pode ser uma emoção-Woody Allen. Assim por diante, cada coisa sendo uma coisa diferente. Porque o que vai sendo vivido e sentido por cada um é tão particular que, mesmo lugar comum ou já cantado em prosa e verso, é para sempre também único. Infinitiva e indivisivelmente subjetivo.

Nosa, como estou me dispersando. O que quero dizer é muito simples – adoro Maria Bethânia. Por um tempo, aposentei Eurythmics, The Cure, Talking Heads, Legião Urbana, Sting, Paul Simon – só consigo Bethânia.

Ando tomado por emoções-Bethânia. Essas, que estão morrendo à míngua, poque não é moderno ter emoções. Não é in sentir amor, envolver-se. Ficou out dizer coisas como “quero ficar com você/ e é tão fundo que eu posso dizer/ que o fim do mundo não vai chegar mais” ou “parece bolero/ te quero, te quero/ dizer que não quero/ teus beijos nunca mais” ou “quando os caminhos se separam/ não tem razão que dê mais jeito” ou “é tão difícil ficar sem você/ o teu amor é gostoso demais”. É burro cantar coisas que eu, tu, ele, nós sentimos? É brega ter desejos e carências e dores e suspiros assim, de gente?

Sentir não é brega. Ao contrário: não existe nada mais chique. Emocione-se e seja o rei de sua insensatez. Seja nobre, seja divino no desconcerto das emoções. Maria Bethânia é muito chique, e quase ninguém está vendo isso. Em Dezembros, sem querer fazer nenhuma revolução, ela chega e diz: “Dá licença, rock and roll, que a titia vai cantar o amor”. E eu peço: Crianças, cessem as guitarras, os teclados, os sintetizadores – um minuto só – e prestem atenção na voz quente dessa mulher linda do jeito inverso da beleza, cantando (que ousadia!) o amor.

Sei: a Aids está solta, e o que era possibilidade de amor agora é possibilidade de morte. Nem por isso é possível parar de amar. Você consegue? Eu, não. E não tenho medo. Sem platonismos, nem zen-budismos: quero que pinte o amor-Bethânia, dançar de rosto colado, pegar na mão à meia-luz, desenhar com a ponta dos dedos cada um dos teus traços, ficar de olho molhado só de te ver, de repente e, se for preciso, também virar a mesa, dar tapa na cara, escândalo na esquina, encher a cara de gim, te expulsar de casa e te pedir pra voltar.

Darks, pós-modernos, minimalistas, gliters, apocalípticos, concretistas, skinheads, me perdoem. Na noite de sábado, caminhando sozinho pela avenida Paulista, o quarto-crescente brilhando sobre a torre da TV Globo, uma vontade desesperada de ter alguém – as únicas canções que me vieram à mente para cantar baixinho foram canções de Bethânia. Doía fundo estar perdido na grande cidade, era completamente sem remédio ser só uma pessoazinha machucada. Mas brotou então um orgulho tão grande de ser ainda capaz de sentir o coração cheio de emoções-Bethânia que era quase como uma felicidade. Sangrada, do avesso – que importa? Era real, era vivo. Isso é muito, e Bethânia canta.

                                 (Caderno 2 – O ESP – 1987 Caio Fernando Abreu)

Vamo comer Caetano ?



“Há anos Caetano dá todos os toques sem cobrar nada e o Brasil não saca. Azar do Brasil”. Azarésimo. E azar o seu, se não ouvir.

Pega o disco, tá tudo lá. O Brasil negro, já na foto (linda de Flávio Colker (sobre concepção de Luiz Zerbini) na capa, no candomblé que passeia seus axés por Depois Que o Ilê Passar e Ia Omim Bum, ou em Eu Sou Neguinha? Tá lá o discurso político em Vamo Comer: “Quem vai equacionar as pressões/ do PT, da UDR/ e fazer dessa vergonha uma nação?” Tem o cinema falado de Giulietta Massina – “ah, minha vida sozinha/ ah, tela de uma outra luz” -, tem a solidão das estradas em Noite de Hotel: “Estou a zero, sempre o grande otário”. E aquela que deve ser uma das mais belas letras (e músicas) feitas nos últimos anos neste país, O Ciúme.


Numa tarde cheia de luz, no rio São Francisco, sobre toda a paisagem “paira, monstruosa, a
sombra do ciúme”. O humano torturado projeta sua imagem interior sobre a paisagem indiferente, alheia à dor individual. Mas de dentro dessa tortura, que nada alivia e ninguém pode perceber, é que o ser olha e suspeita: “Tudo é perda, tudo quer buscar – cadê?”
Porque tem luz e sombra. Uma engendra a outra, uma nasce de dentro da outra. Tem amor e ódio, tem encontro e perda, tem identificação e indiferença. Tem dias em que tudo se encaixa, como no momento das peças finais dos quebra-cabeças, e tem aqueles em que tudo se desencaixa numa aflição tonta de não haver sentido nem paz, amor, futuro ou coisa alguma. Tem dias que nenhum beijo mata a fome enorme de outra coisa que seria mais (e sempre menos) que um beijo. Mas tem aqueles outros, quando um vento súbito e simples entrando pela janela aberta do carro para bater nos teus cabelos parece melhor que o mais demorado e sincero dos beijos. Precisamos dos beijos, precisamos dos ventos. Tem dias de abençoar, dias de amaldiçoar. E cada um é tantos dentro do um só que vê e adjetiva o de fora que escapa, tão completamente só no seu jeito intransferível de ver: “E eu sou só eu só eu só eu”.

A voz e a poesia de Caetano passeiam nesse limiar – Limiar é tão bonito, parece limite, parece ar, um limite no ar? – entre os opostos. Umbigo do Brasil, como diz Maria Clara/ Cacaia. Cravado no centro, origem, raiz, verdade.
Vamo comer, vamo comer Caetano: bom apetite.

 
( Caio Fernando Abreu )

3 de novembro de 2010

_ Nada é muito quando é demais _

" Dizem que a gente tem o que precisa. Não o que a gente quer. Tudo bem. Eu não preciso de muito. Eu não quero muito. Eu quero mais. Mais paz. Mais saúde.Mais dinheiro. Mais poesia. Mais verdade. Mais harmonia. Mais noites bem dormidas. Mais noites em claro. Mais eu. Mais você. Mais sorrisos, beijos e aquela rima grudada na boca. Eu quero nós. Mais nós. Grudados. Enrolados. Amarrados. Jogados no tapete da sala. Nós que não atam nem desatam. Eu quero pouco e quero mais. Quero você. Quero eu. Quero domingos de manhã. Quero cama desarrumada, lençol, café e travesseiro. Quero seu beijo. Quero seu cheiro. Quero aquele olhar que não cansa, o desejo que escorre pela boca e o minuto no segundo seguinte: nada é muito quando é demais"

(Caio Fernando Abreu)

Dica do dia

  • Arca de Nóe - Filme
  • Nikita - Séries
  • The Big Bang Theory - Séries
  • Dexter - Séries
  • Touch - Séries
  • 50 / 50 - Filme
  • Amizade Colorida - Filme
  • Confiar - Filme
  • A Bela Adormecida - Filme
  • Pedras de Calcutá - Caio Fernando Abreu
  • O Ovo Apunhalado - Caio Fernando Abreu
  • Morangos Mofados - Caio Fernando Abreu
  • As Frangas - Caio Fernando Abreu
  • Convivendo com os Diabinhos - Mirim Roders
  • Decisões Extremas - Filme
  • O Poder e a Lei - Filme
  • Os segredos da mente milionária - T. Harv Eker
  • Piaf - Filme
  • O Varredor de Cinzas - Livro
  • Apenas Sexo - Filme

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Os infinitos mais vistos

Isso é escrever

“Não sinto nada mais ou menos, ou eu gosto ou não gosto. Não sei sentir em doses homeopáticas. Preciso e gosto de intensidade, mesmo que ela seja ilusória e se não for assim, prefiro que não seja. Não me apetece viver histórias medíocres, paixões não correspondidas e pessoas água com açúcar. Não sei brincar e ser café com leite. Só quero na minha vida gente que transpire adrenalina de alguma forma, que tenha coragem suficiente pra me dizer o que sente antes, durante e depois ou que invente boas estórias caso não possa vivê-las. Porque eu acho sempre muitas coisas - porque tenho uma mente fértil e delirante - e porque posso achar errado - e ter que me desculpar - e detesto pedir desculpas embora o faça sem dificuldade se me provarem que eu estraguei tudo achando o que não devia. Quero grandes histórias e estórias; quero o amor e o ódio; quero o mais, o demais ou o nada. Não me importa o que é de verdade ou o que é mentira, mas tem que me convencer, extrair o máximo do meu prazer e me fazer crêr que é para sempre quando eu digo convicto que nada é para sempre." (Gabriel García Márquez)

Definição

"Me mande mentalmente coisas boas. Estou tendo uns dias difíceis, mas nada, nada de grave. Dias escuros sem sorrisos, sem risadas de verdade. Dias tristes, vontade de fazer nada, só dormir. Dormir porque o mundo dos sonhos é melhor, porque meus desejos valem de algo, dormir porque não há tormentos enquanto sonho, e eu posso tornar tudo realidade. Quando acordo, vejo que meus sonhos não passam disso, sonhos; e é assim que cada dia começa: desejando que não tivesse começado, desejando viver no mundo dos sonhos, ou transformar meu mundo real num lugar que eu possa viver, não sobreviver."
(CFA)

Pausado

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"Tô feliz, to despreocupado, com a vida eu to de bem"

Quem sigo

Um Pouco

"Mas como menina-teimosa que sou, ainda insisto em desentortar os caminhos. Em construir castelos sem pensar nos ventos. Em buscar verdades enquanto elas tentam fugir de mim. A manter meu buquê de sorrisos no rosto, sem perder a vontade de antes. Porque aprendi, que a vida, apesar de bruta, é meio mágica. Dá sempre pra tirar um coelho da cartola. E lá vou eu, nas minhas tentativas, às vezes meio cegas, às vezes meio burras, tentar acertar os passos. Sem me preocupar se a próxima etapa será o tombo ou o voo. Eu sei que vou. Insisto na caminhada. O que não dá é pra ficar parado. Se amanhã o que eu sonhei não for bem aquilo, eu tiro um arco-íris da cartola. E refaço. Colo. Pinto e bordo. Porque a força de dentro é maior. Maior que todo mal que existe no mundo. Maior que todos os ventos contrários. É maior porque é do bem. E nisso, sim, acredito até o fim.” (Caio Fernando Abreu)